Açougueiro que atropelou e matou três jovens em Jaíba é condenado a 30 anos de prisão pelo Tribunal do Júri de Feira de Santana; promotor destaca caráter pedagógico da decisão

Júri popular durou mais de 14 horas no Fórum Filinto Bastos, em Feira de Santana. Réu foi condenado por homicídio doloso e levado direto ao Conjunto Penal após a sentença.
Feira de Santana (BA) – O Tribunal do Júri de Feira de Santana condenou, na noite desta sexta-feira (17), Adalto Roberto da Silva Júnior, de 26 anos, a 30 anos de prisão por homicídio doloso, em julgamento que durou cerca de 14 horas e 30 minutos, no Fórum Desembargador Filinto Bastos. O julgamento foi presidido pela juíza Yasmin Leão.
O Ministério Público foi representado pelos promotores Antônio Luciano e Marina Miranda. Já a defesa teve a participação de seis advogados: Joari Wagner, Emanuele Zatti, Paulo Henrique, Abdon Abad, Carlos Magnavita e Henrique Abade.
O caso
Adalto, conhecido como “o açougueiro”, foi responsabilizado pelo acidente que resultou na morte de Ronald Soares dos Santos, de 7 anos, Williane Azevedo de Jesus, de 16, e Rafael dos Santos Gonçalves, de 17 anos, além de deixar outros dois adolescentes — Nadson e Kailane — gravemente feridos.

O atropelamento ocorreu em 31 de julho de 2022, na BA-503, estrada que liga Feira de Santana ao distrito de Jaíba.
De acordo com as investigações, o réu conduzia um automóvel em alta velocidade, sob efeito de álcool e sem habilitação, quando colidiu com duas motocicletas em que as vítimas estavam.
Preso em flagrante, Adalto chegou a cumprir três meses no Conjunto Penal de Feira de Santana, mas obteve liberdade provisória por habeas corpus. Três anos depois, foi levado a júri e condenado.
“Decisão tem caráter pedagógico”, avalia promotor

Ouça a entrevista:
Em entrevista ao repórter Sotero Filho, o promotor de Justiça Antônio Luciano classificou a sentença como justa e proporcional à gravidade do caso.
“É uma pena adequada e justa à gravidade dos fatos. Foi bem fundamentada e criteriosamente aplicada pela magistrada presidente. Trata-se de um caso que abalou toda a comunidade de Jaíba e, por extensão, Feira de Santana”, afirmou o promotor.
Antônio Luciano destacou que decisões como essa têm caráter pedagógico e servem de exemplo para a sociedade.
“O Tribunal do Júri é uma escola. Ele precisa ensinar, e as decisões tomadas aqui devem ter efeito positivo na sociedade. Julgamentos como este criam precedentes que conscientizam não só o réu, mas também outras pessoas que assumem riscos ao dirigir sob efeito de álcool e em alta velocidade”, ressaltou.

O promotor explicou que o réu foi condenado pelos três homicídios dolosos e desclassificado nas tentativas, respondendo por lesão corporal culposa no trânsito.
“Foram três vítimas fatais, e, embora tenha sido uma única conduta, as consequências foram extremamente graves. A juíza ponderou cada circunstância e aplicou a pena de forma adequada”, pontuou.
Defesa recorre e sustenta que “não houve intenção de matar”

Ouça a entrevista:
A defesa do réu anunciou que recorrerá da sentença. O advogado Joari Wagner disse que a expectativa era pela desclassificação do crime para homicídio culposo na direção de veículo automotor, com base no artigo 302 do Código de Trânsito Brasileiro.
“Viemos acreditando que o Conselho de Sentença poderia decidir pela desclassificação, porque, ao nosso ver, ficou comprovado que não houve intenção de matar e tampouco dolo eventual. Mas respeitamos a decisão dos jurados e já interpusemos o recurso cabível. Agora caberá ao Tribunal de Justiça da Bahia decidir se mantém ou reforma a sentença”, declarou.
Wagner admitiu que a defesa não esperava uma pena tão alta, embora reconheça a gravidade do acidente.
“Não esperávamos 30 anos. Houve vítimas fatais, inclusive uma menor de 14 anos, mas tudo ocorreu dentro do contexto de um acidente de trânsito. O Ministério Público fez uma interpretação que consideramos forçada, mas legítima, e o júri acabou acatando”, explicou.
Segundo o advogado, Adalto Robert já estava ciente da possibilidade de prisão e decidiu comparecer ao julgamento.
“A defesa foi transparente. Ele poderia ter se ausentado, e o júri seria realizado com a cadeira vazia, mas preferiu estar presente e assumir a responsabilidade. Agora, será encaminhado ao presídio”, completou.
Mães das vítimas comemoram decisão: “A justiça foi feita”

Ouça a entrevista:
Após o julgamento, a emoção tomou conta das famílias das vítimas. Karla Soares, mãe de duas das vítimas fatais, disse que sai do fórum com o sentimento de alívio e justiça.
“Eu tô feliz porque a justiça foi feita. Deus já tinha me confirmado que eu não sairia envergonhada daqui. Foram três anos de muita dor, mas hoje posso descansar o coração. Meu filho tinha só sete anos, nem viveu, e agora ver o responsável preso me traz paz”, declarou emocionada.
Ela também agradeceu o apoio da imprensa e da comunidade:
“Agradeço a Deus e a todos que me apoiaram desde o início, nas manifestações e nos momentos mais difíceis. Hoje posso dormir tranquila, porque a justiça foi feita.”

A dona Antônia Santos, mãe de Rafael, outra vítima, também falou com a reportagem e destacou a importância da condenação.
“Essa decisão não traz nosso filho de volta, mas alivia o coração. Sei que a mãe dele também sofre, mas ela pode visitá-lo, e nós não temos mais essa chance. A resposta de Deus veio, e a dos homens também. Mostrou que não há nada oculto que não venha a ser revelado”, afirmou.
Reportagem: Sotero Filho e Messias Teles – Casos de Polícia FSA





